LETRAS

Aquela Linda a Dançar

Onde vais com tanta pressa, rio que tanto queres ser mar?
Traz-me a onda em que regressa aquela linda a dançar...
Traz-me o sal daquela boca que tanto quero beijar,
Mata este louco ensejo, mas corre sempre para o mar...

Nuvens que voam depressa, levem-me a mim pelo ar,
Se a vossa vontade é essa façam chover sem parar,
Dêem água a esses rios para o amor não secar,
Que chovam dias a fio, mas deixem também o sol brilhar...

Aquela linda a dançar troca-me as voltas, mas é tão bom,
Se ela lança aquele olhar troco o tempo, saio do tom...

Vento que andas sempre á solta, por esse mundo a viajar,
Entras pela minha porta, vens por aí a assobiar,
Trazes na vertigem louca aquela linda a dançar,
Com a brisa nos cabelos e rajadas no olhar...

Vinho que enches tantos copos dá de beber ao luar,
Para que a noite adormeça, para o dia não madrugar,
Vem sentar-te nesta mesa para me poderes cantar,
A canção em que regressa aquela linda a dançar...

Aquela linda a dançar troca-me as voltas, mas é tão bom,
Se ela lança aquele olhar troco o tempo, saio do tom...

Eterna Procura

Paz na brisa calma, água do rio a correr
Lava-me a alma, faz-me acreditar que é bom viver

Passo á noite em ruas onde me quero perder
Há quantas luas tenho a sensação de te ver

Mas deixa lá, o tempo tudo cura, a vida muda já
E a eterna procura pelo melhor que há
Ainda vai continuar

Deixa estar, se os medos da loucura te vão afrontar
A coisa vai ser dura, vais ter de aguentar
Que mais irás suportar?...

Se Eu Pudesse Aqui Ficar

Quero abraçar os pinheiros como velhos companheiros
E mergulhar de um rochedo para o rio que corre, sem medo

Quero escalar o penedo de onde avisto o verde manto
Dos pinhais e arvoredos desta paisagem que canto

Cores que ainda me deslumbram depois de tanto as pintar
Nos recantos da memória onde sonho enfim voar

Como as aves que povoam estes céus ao madrugar
São as vozes que ecoam que me estão sempre a chamar

Brilham reflexos nas águas do rio que serpenteia
Em labirintos de vales que a solidão semeia

Ah, se eu pudesse aqui ficar... Há sempre um destino a chamar
Alma viandante quer sair, futuras memórias descobrir

Quero abrir novos caminhos por trilhos desconhecidos
Quero rotas, quero estradas, viagens atribuladas

Quero perder as certezas das crenças, mitos e regras
Noutras paragens e rumos onde há outros supra-sumos

Pelas curvas deste mundo anda a sorte assim escondida
Seja num vale profundo ou no cimo de uma ermida

Ah, se eu pudesse já sair, guiando as esperanças ao porvir
Alma resistente quer ficar, lembrando as histórias dos lugares

Ah, se eu pudesse aqui ficar... Há sempre um destino a chamar
Alma viandante quer sair, futuras memórias descobrir

Abril Murchou

Quando os sonhos já não te acordam a sorrir
Que luas te anoitecem, que nuvens te escurecem,
Que ventos e que chuvas ainda estão para vir?...

Muitos dias passaram depois do adeus,
Em que vila morena é que o povo ordena,
Quem ficou a sonhar os sonhos que eram teus?

Não sentes uma dor fechada, por ter ficado inacabada
A planta onde surgia um lugar melhor?
Passaram-se anos numa espera, de que valeu essa quimera,
Se a mesma lenga-lenga se vai ouvir de cor?

E quando te dás conta já tudo caiu,
Que luta continua, que morte sai á rua,
E em que primeiro dia o Maio amadurece Abril?

E se uns impérios caem que outros vão surgir,
“Que trovas vão avante?”, pergunto ao vento errante,
Se mudam os tempos a vontade é de fugir...

Não sentes uma dor fechada, por ter ficado inacabada
A planta onde surgia um lugar melhor?
Passaram-se anos numa espera, de que valeu essa quimera,
Se a mesma lenga-lenga se vai ouvir de cor?

Estas Palavras

Estas palavras cantadas que aqui convosco partilho
Como o mais ténue segredo em mostruário vazio,

Não têm história ou enredo, são um novelo sem fio,
Livro de contos em branco, pássaro cativo,

Sem firmamentos brilhantes, ou bonitas alvoradas,
São os eternos instantes de tudos e nadas.

E numa calma apressada de sonolências desperto,
Dou por mim na prisão de ar livre em céu aberto...

Como se todo o perfume se esvaziasse no esgoto
E tentasse encher com ar o saco que está roto.

Como se o tempo no Mundo parasse por uns instantes,
E depois voltasse atrás para tudo o que era dantes...

Sonho Às Vezes Que Voo

Sonho às vezes que voo
outras são para esquecer
pois se nem sequer durmo
nem pelo amanhecer

Ah, quem me dera a mim
só poder voar
nas noites sem fim
vaguear nos céus
ou rasar o mar
pairar sobre a névoa um instante e mergulhar

Dias passam em claro
brancas sombras da luz
meu diamante em bruto
o teu brilhante seduz

Ah, brilhos desse olhar
jóias deste amor
astros a girar
chamas de prazer
céus a rodopiar
gritos de ternura são cantos desta loucura

Sonho às vezes que voo
Sonho às vezes que fui

Penso em tempos perdidos
ganhos noutros lugares
quais memórias de livros
sons falas e cantares

Vem percorrer os ares
nos sonhos assim
volto a esses lares
ruas e jardins
praças de luar
todos os recantos
que escondem o que me mostras

Sonho às vezes que voo
Sonho às vezes que fui

A Embriaguez da Metamorfose

Já se me esgotam palavras, já nem ouço quando falas
Bebo à saúde de quem, nem á minha nem á tua
Estou à toa, não estou p´ra ninguém

Já se me enrola a garganta, já nem ouço quem canta
A boca seca reclama bebida, a cabeça pesa mas diz que sim
Até que tomba adormecida, e se desligam o som e a imagem dentro de mim

Mas desvanecer assim, é fazer pouco de mim
Apagar a chama, da conquista do que se ama
E se é preciso mudar, dar o melhor em qualquer lugar
Está a chegar a hora, já chegou agora

Já se renova a esperança de continuar em mudança,
Ganha sentido essa força que brilha dentro de ti,
O tempo não te demove e os dias brilharão por fim...

Canta Contrabaixo, Canta

Canta contrabaixo, canta, na minha garganta, tuas cordas e teu som
No teu corpo de mulher encontrei esse sorriso
E assim faço amor contigo quantas vezes eu quiser

Gritas se achas que é preciso, depois soltas um gemido
Até perco o juízo com a nossa afinação

Minha barca de madeira, só com a mão ligeira te consigo dominar
O som do teu coração encostado ao meu ouvido
Faz-me querer estar contigo, teu braço na minha mão

E se as minhas mão percorrem cada parte do teu corpo
Deixas de ser peso morto para tocares esta canção

Carnavais, Circos e Futebóis

À espera que rebente a esfera de fogo ardente
que traz dias cinzentos de grandes temporais
E sentados à espera afundam na galera
as vítimas de guerra dos lucros imorais

Há quem fique indiferente, levado pela corrente
embalado na lábia das prosas banais
virá o ferro em brasa para os marcar em massa
servindo-os de repasto aos bandos de chacais

Carnavais e circos e futebóis,
deixaram-te ó povo em tão maus lençóis
nesses trapos velhos te vão embrulhar
servem de mortalha para te enterrar

Novos oportunistas tal como parasitas
"doutores" e "engenheiros" da maquinação
pavões, galos de crista a querer dar nas vistas
a defender a obra de destruição

E passeia o pedante altivo e triunfante
engendrando mais formas de nos explorar
Guiando o carro novo (aquele que pagou o povo)
vai largando miséria por onde passar

Rectângulo esquisito, hás de estar sempre aflito
enquanto não souberes andar pela tua mão
põe o ferro na forja, livra-te dessa corja,
e aprende esta palavra: REVOLUÇÃO!

Seara

Reina a calmaria nos campos por semear
Faz-se a noite esguia entre sombras ao luar
Cumpre a madrugada o ritual do amor
Vento de nortada, faz temer o pior

Vou batendo a terra na estrada local
Para onde me leva o instinto , afinal?
Vou na roda viva, labirinto surreal
Pinto as cores da vida, na paisagem rural

E enquanto a aldeia ensonada agradece os primeiros raios de sol
Parto e já não volto ao teu lençol
E quando a sombra das nuvens invadir a nossa seara
Choras e as lágrimas escorrem pela cara

Já toda a aldeia acordada trabalha debaixo de sol
Quero regressar ao teu lençol
O mesmo sol que ilumina também causa ardor
Faz-me tanta falta o teu calor

Nestas Palavras

Nestas palavras guardo o testemunho que te vou cantar
Tão longe ou cada vez mais perto de te poder alcançar

E nos meus braços, com teus finos traços tu te vens deitar
Prazeres terrenos, aromas amenos da pele a brilhar

Voa meu anjo sobre este inferno de fogo a escaldar
Formas helénicas em poses cénicas do esplendor

Retratos vivos dessa grande incógnita chamada amor
Nestas palavras guardo o testemunho que me cala a dor